Delegado Paulo Márcio afirma que jamais votará no “Senador Alessandro Vieira” e o define como traidor

“Ele já me deu provas mais do que suficientes de que não é uma pessoa confiável”, diz

SERGIPE – Filiado ao DEM e colunista político do Universo, o delegado Paulo Márcio explica nesta entrevista que não tem arrependimento por não ter votado no também delegado, o senador Alessandro Vieira (Cidadania). “Claro que não me arrependo. E para responder a essa pergunta de modo mais franco possível, precisarei expor algumas razões pelas quais não votei nem jamais votarei em Alessandro Vieira. Em primeiro lugar, ele já me deu provas mais do que suficientes de que não é uma pessoa confiável do ponto de vista político; ao contrário, é o tipo de pessoa que assume um compromisso, empenha a palavra, mas, na primeira oportunidade, de acordo com seus interesses e conveniências, descumpre aquilo com que se comprometeu”, diz Paulo Márcio. “Vou dar dois exemplos desse comportamento pérfido que ilustram bem minha assertiva e desafio qualquer pessoa, inclusive o senador, a me desmentir.” A entrevista

O senhor se filiou ao DEM, nas eleições passadas, por acreditar no projeto Mendonça Prado, que comandava o partido, era pré-candidato ao Governo do Estado e lhe fez o convite. Hoje, este comando está nas mãos do ex-deputado federal José Carlos Machado. O senhor segue no partido?

Sigo, apesar de um pouco distanciado de qualquer atividade político-partidária em razão de minhas atribuições como delegado de polícia e, particularmente, da falta de proximidade com o novo presidente da agremiação. Mas, na semana passada, por coincidência, recebi o convite de um importante quadro do Democratas para formarmos um grupo voltado ao estudo e discussão de temas ligados à Segurança Pública e áreas afins. Fiquei muito honrado e me dispus a colaborar.

Mendonça tentou lhe convencer a disputar as eleições 2018, mas o senhor optou por não ser candidato. E agora, nas eleições 2020, poderemos ter mais um delegado candidato?

Eu me filiei ao Democratas, em 2018, a convite de Mendonça Prado, por amizade, gratidão e, sobretudo, solidariedade ao ex-deputado federal, que, corajosamente, decidira se lançar ao Governo do Estado, mesmo depois de ter sofrido uma campanha covarde e difamatória por ocasião de sua passagem à frente da Emsurb. E a covardia e difamação a que me refiro nada têm a ver com a investigação conhecida como Operação Babel, mas ao seu uso e exploração políticos travestidos de interesse republicano. Naquele momento, como deixei claro a Mendonça, não tinha interesse em me candidatar a nenhum cargo, fosse proporcional ou majoritário, mas apenas colaborar com sua campanha. Em relação a 2020 ou 2022, porém, tendo em vista o incentivo e apelo de alguns amigos, existe a possibilidade de que eu venha a disputar um cargo eletivo, quem sabe até majoritário, não necessariamente pelo Democratas, mas por qualquer partido com o qual tenha afinidade.

Por falar em delegado disputando um mandato, o senhor deixou claro que não votaria em Alessandro Vieira para senador. Hoje, analisando estes quase 10 meses de mandato dele, o senhor se arrepende?

Claro que não me arrependo. E para responder a essa pergunta de modo mais franco possível, precisarei expor algumas razões pelas quais não votei nem jamais votarei em Alessandro Vieira. Em primeiro lugar, ele já me deu provas mais do que suficientes de que não é uma pessoa confiável do ponto de vista político; ao contrário, é o tipo de pessoa que assume um compromisso, empenha a palavra, mas, na primeira oportunidade, de acordo com seus interesses e conveniências, descumpre aquilo com que se comprometeu. Vou dar dois exemplos desse comportamento pérfido que ilustram bem minha assertiva e desafio qualquer pessoa, inclusive o senador, a me desmentir. Em agosto de 2007, (governo Marcelo Déda) eu era o então Superintendente da Polícia Civil, cargo atualmente denominado Delegado Geral. Numa certa feita, recebi em meu gabinete a Diretoria da Adepol, presidida à época pela então delegada e hoje juíza de direito Iracy Mangueira, acompanhada de uma comissão de delegados, entre os quais o doutor Alessandro Vieira. Ficou estabelecido que a conversa mantida ali, no gabinete do Chefe da Polícia Civil, era reservada e ninguém, absolutamente ninguém, estava autorizado a divulgar o seu conteúdo. No dia seguinte, todavia, para decepção de todos nós, Alessandro Vieira traiu-nos a confiança e divulgou todo o conteúdo da conversa em uma assembleia com cerca de 100 delegados presentes. Estranhamente, no dia seguinte à assembleia detalhes da mesma conversa sigilosa foram publicados em uma das mais importantes colunas jornalísticas da época, gerando uma crise na SSP que culminou na minha exoneração, além de trazer graves prejuízos à minha carreira e ao projeto que estávamos implementando com muita dificuldade. Anos depois, mais precisamente em 2016, eu me encontrava na presidência da Adepol e Alessandro Vieira ocupava o cargo de Delegado Geral. Convidado por mim para participar de uma assembleia geral da categoria, a fim de ouvir as reclamações dos delegados sobre as condições de trabalho e a defasagem do valor pago pelos plantões, bem como sobre a possibilidade de suspensão dos plantões extraordinários até a adoção de uma solução definitiva por parte do governo, Alessandro Vieira deu a palavra de que nenhum delegado responderia a processo administrativo, caso faltasse a plantão extraordinário e voluntário, haja vista ser aquele o entendimento do Conselho Superior de Polícia Civil. Tudo isso foi registrado em ata. Entretanto, tão logo foi divulgada a informação de que os plantões seriam suspensos, Alessandro Vieira encaminhou ofício à Corregedoria determinando a instauração de processo administrativo disciplinar contra todos os delegados que cumpriram a orientação da Adepol e confiaram na palavra dele. Convém lembrar que, àquela altura, ele já estava balançando no cargo de Delegado Geral e, numa tentativa tanto frustrada quanto indigna de se segurar na cadeira, escolheu trair a própria categoria para marcar ponto com o governo. A notória incoerência de Alessandro Vieira, aliada ao seu aguçado senso de oportunismo, é outra característica que abomino em qualquer pessoa. Vou me explicar melhor: conheço Alessandro Vieira há 18 anos. Somos do mesmo concurso de delegado (turma de 2001). Confesso que nunca vi pessoa mais conservadora do que ele no âmbito da Polícia Civil, aliás, em lugar nenhum. Posso falar isso de cátedra, pois, como ex-militante de partido de esquerda, consigo identificar um conservador de longe, mesmo que disfarçado de trabalhador sem-terra ou usando boina de Che Guevara. Qual não foi minha surpresa ao saber, dias após a traição e instauração dos processos administrativos disciplinares contra os delegados que lutavam por melhores condições de trabalho, que o Delegado Geral Alessandro Vieira estava filiado à Rede Sustentabilidade de Marina Silva? Não sei dizer se a a filiação ocorreu antes ou durante sua gestão como Delegado Geral. Porém, para quem entende minimamente de política, uma coisa é certa: a filiação de alguém com DNA conservador a um partido de esquerda fazia parte de uma meticulosa estratégia elaborada com base em criteriosa análise do cenário político e do perfil do eleitorado sergipano. Noutras palavras, sabedor de que o eleitorado sergipano é eminentemente progressista e que os candidatos filiados a partidos do campo de esquerda conseguem um melhor desempenho nas urnas quando afinam o discurso, Alessandro Vieira como que se metamorfoseou num Ernesto Guevara pós-moderno, certo de que atrairia o voto do eleitor progressista descolado do PT e seus puxadinhos; ao mesmo tempo, pegou carona no lavajatismo e no bolsonarismo para arrebanhar o voto conservador, com direito a vídeo ao lado de Luizão Dona Trump, embaixador de Bolsonaro em terras sergipana. A despeito do paradoxo, da contradição, do oportunismo, a estratégia foi bem-sucedida. E assim a “nova política” marino-bolsonariana seguiu firme como um grande rio caudaloso, alimentado por afluentes das margens esquerda e direita. No segundo turno, o já eleito senador Alessandro Vieira viu-se na contingência de fazer escolhas. Para presidente, declarou apoio a Jair Bolsonaro. Começou ali o fim da lua de mel com o eleitorado progressista. Selada a vitória de Bolsonaro no segundo turno, seguiu-se uma troca açodada da Rede Sustentabilidade pelo Cidadania, justificada nas questões relacionadas à cláusula de barreira, quando na verdade foi um movimento de aproximação com o governo Bolsonaro. É fato que o Cidadania (antigo PPS e PCB), diferente da Rede e outros partidos de esquerda, é mais aberto a diálogos e entendimentos com governos de centro-direita, como FHC, Temer e, claro, Bolsonaro. Não por acaso, o debutante senador Alessandro Vieira, legítimo representante da “nova política”, depois de filiado ao Cidadania, juntou-se ao ministro Onyx Lorenzoni (DEM) para apoiar Davi Alcolumbre (DEM) à presidência do Senado, ao argumento de que queria derrotar o representante da velha política Renan Calheiros (PMDB). Como se vê, uma aula de coerência e elevados valores republicanos em defesa da democracia.

Segundo o ex-presidente da Assembleia Legislativa, Reinaldo Moura, Alessandro Vieira é “vaidoso, pedante e se acha o rei da cocada preta”. Como o senhor avalia este juízo de valor?

Assim como ninguém está obrigado a concordar com a minha avaliação sobre Alessandro, mesmo que respaldada em fatos concretos e objetivos, ninguém precisa chancelar esse juízo de Reinaldo Moura, que constitui uma análise muito mais subjetiva. Mas acho que o ex-presidente da Assembleia Legislativa e do TCE poderia ter ilustrado sua assertiva com um exemplo concreto da falta de coerência de Alessandro Vieira, mostrando que o título de rei da cocada preta não lhe cai tão bem, embora o pedantismo e a vaidade possam estar presentes aqui ou ali. Bastava Reinaldo ter dito que, há pouco mais de dois meses, fomos surpreendidos com a notícia de que o senador Alessandro Vieira havia indicado o empresário Milton Andrade para a Superintendência da Codevasf em Sergipe. Quem indica cargos é aliado, correto? E essa nomeação, tratada em absoluto sigilo, só não se concretizou porque Alessandro não só votou contra o decreto presidencial de flexibilização do porte de arma de fogo como declarou tratar-se de instrumento que beneficiaria a indústria de armas e estimularia a formação de milícias. Ora, a revogação do Estatuto do Desarmamento ou a flexibilização do porte de armas foi uma das principais bandeiras de Bolsonaro em sua campanha à presidência da República. Por que, então, um senador negocia com o governo, nos bastidores, a indicação para cargos federais e, em público, ataca as iniciativas desse mesmo governo, associando-o, ainda que indiretamente, às milícias e à indústria armamentista? Isso, sim, é servir a dois senhores. Isso, sim, é acender uma vela para Deus e outra para o diabo. Outro exemplo claro de incoerência, oportunismo e falta de palavra. Ou alguém acredita que a indicação de Milton Andrade para a Codevasf se deu sem qualquer contrapartida – um milagre produzido pela nova política? Daí aquela história fantasiosa de que Milton Andrade não foi nomeado por falta de consenso da bancada. História para tolos, obviamente.

A CPI Lava Toga precisa ser instaurada?

O Poder Judiciário tem que ser depurado, eviscerado, totalmente escoimado das coisas ruins que o desabonam, pois constitui a última linha de defesa dos cidadãos contra o arbítrio, a tirania e os desmandos administrativos. Não sei se uma CPI como essa tem condições de atingir tal objetivo. No máximo, fisgaria dois ou três espécimes graúdos que nem deveriam estar onde estão, além de trazer a público relações espúrias entre ministros e escritórios de advocacia milionários. Ainda que instalada e funcione por algum tempo, tal CPI só arranhará a superfície do problema, pois o sistema já acionou seus mecanismos de autodefesa. Mas sou a favor de sua instalação, sobretudo por se tratar de um instrumento das minorias para investigar fatos determinados e de relevância nacional. Se o quórum mínimo vier a ser atingido, só restará ao presidente do Senado cumprir a Constituição Federal.

Quais as suas expectativas sobre as eleições 2020?

A depender do resultado do julgamento do recurso do governador Belivaldo Chagas pelo TSE, poderemos ter eleições totalmente diferentes. Se a cassação for mantida e a eleição para governador antecipada, a tendência é que os blocos mantenham-se coesos para não perderem força nas duas disputas, que podem ocorrer simultaneamente ou em datas próximas. Nesse cenário, o prefeito Edvaldo Nogueira (PC do B) seguiria contando com o apoio do PT, que lançaria Rogério Carvalho ou Eliane Aquino para o governo com o apoio do comunista. As oposições também teriam que se entender, pois, quanto mais fragmentado o bloco, mais difíceis seriam as chances de enfrentar as duas máquinas administrativas trabalhando conjuntamente. Eu arrisco dizer que, nesse cenário, Valadares Filho seria o candidato a prefeito de Aracaju com mais condições de agregar, ao passo que Alessandro Vieira despontaria como o nome mais cotado para disputar o governo. Se, no entanto, Belivaldo Chagas for absolvido pelo TSE, só teremos eleição para governador em outubro de 2022. Sem tanto atropelo e correria, é mais provável que, em 2020, tenhamos um primeiro turno para prefeito de Aracaju com Edvaldo Nogueira enfrentando Valadares Filho, Gilmar Carvalho, um representante da “nova política” e um candidato do PT apoiado por Rogério Carvalho, que prepara o terreno para 2022. A meu ver, a presença de Gilmar Carvalho, com forte penetração na periferia, e de um candidato do grupo da “nova política”, com mais força entre os eleitores da classe média, fará da eleição de 2020 uma das mais disputadas dos últimos tempos, algo parecido com 1996, quando tivemos um primeiro turno disputadíssimo entre João Augusto Gama, Ismael Silva, Garibalde Mendonça e Maria do Carmo.

Usar dinheiro público para financiar gastos com campanhas eleitorais num país com tantos problemas cujas soluções passam por recursos não é uma desfaçatez sem tamanho?

Sem sombra de dúvida. E há quem pense que essa medida onerosa ajuda a prevenir a corrupção. O financiamento privado e o controle rigoroso por parte da Justiça Eleitoral constituem a solução mais racional e inteligente para evitar o abuso do poder econômico, tudo isso combinado com a criminalização do caixa 2.

O Supremo Tribunal Federal nunca foi destaque na imprensa como nos últimos anos. Levando-se em conta que a corrupção no serviço público não soa novidade, o que mudou? E como o senhor avalia a atuação do STF?

O Supremo Tribunal Federal teve uma atuação impecável no julgamento da Ação Penal 470, mais conhecida como ‘mensalão’. A liderança e o equilíbrio de Carlos Ayres Britto aliados à firmeza e determinação de Joaquim Barbosa foram fundamentais para vencer a resistência da dupla Toffoli-Lewandovski, que atuava ora como tarefeiros do PT, ora como defensores dos acusados. Mas eis que eclodiu a Operação Lava Jato, revelando ao mundo a existência de um sistema de corrupção envolvendo políticos de todos os matizes, entre eles o tucano Aécio Neves. Esta foi a senha para Gilmar Mendes juntar-se a Toffoli e Lewandowski numa cruzada que, a pretexto de defender o regime democrático contra os arbitrios da Lava Jato, vai blindando cada vez mais o sistema. Com boa parte da militância pró Lava Jato desmobilizada após o acordão entre os três poderes da República, os próximos passos do STF serão colocar o ex-presidente Lula em liberdade e rever o entendimento que atualmente possibilita o início do cumprimento da pena de prisão após condenação em segunda instância. Ou o povo sai às ruas novamente ou os avanços da última década irão por água abaixo.

Como avalia a ideia de facilitar a compra de armas sob o argumento de dar mais segurança à sociedade?

Há exageros de parte a parte. A função de proteger a sociedade é exercida pelo Estado, por meio dos órgãos de segurança pública. A posse ou o porte de uma arma legal podem, no máximo, conferir maior segurança individual a quem a utiliza, sem maiores reflexos sobre os indicadores de segurança pública. Por outro lado, é falso dizer que uma maior flexibilização para a concessão do porte ou registro contribuirá para o aumento da violência. Entendo que há que se buscar o equilíbrio entre o direito legítimo à autodefesa e a segurança da sociedade. Mas posições ideológicas extremadas e pré-concebidas têm tornado impossível a realização de um debate saudável e produtivo.

FONTE – Universo Político 

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