Em menos quatro dias “três jornalistas mexicanos” foram assassinados

Até quinta-feira, a RSF contabilizava o assassinato de oito jornalistas no México em 2019.

MÉXICO – O jornal El Monitor, da cidade de Parral, no norte do México, decidiu parar de publicar sua edição impressa depois que sua sede foi atacada com bombas molotov. Em apenas quatro dias, três jornalistas mexicanos foram assassinados. Antes, pessoas ainda não identificadas entraram à força na casa da jornalista Lydia Cacho, mataram seus dois cachorros e roubaram arquivos, equipamentos de imagem e um computador com dados de investigações jornalísticas. Horas depois, o presidente Andrés Manuel López Obrador – também conhecido como AMLO – atacou quatro organizações de notícias por suas coberturas independentes.

Esses são alguns dos fatos dos últimos 20 dias que denotam como, ao contrário do que prometeu López Obrador durante a campanha eleitoral, o governo nada faz para combater a escalada de violência contra a imprensa mexicana. Pior: o discurso inflamado do presidente – que já classificou veículos de mentirosos, de conservadores e de “submundo” do jornalismo, por exemplo, na tentativa de desqualificar reportagens sobre problemas em sua gestão – tem, no entendimento de especialistas, força para insuflar mais ainda a violência.

Não apenas isso. A verve de López Obrador e a inação de seu governo para garantir a proteção dos jornalistas e empresas de comunicação mantém uma espécie de “duopólio” da opressão à livre expressão, formado pelo crime organizado (na maior parte, composto pelos cartéis do narcotráfico) e por autoridades e agentes políticos.

A metade das agressões contra jornalistas no México é cometida por governadores, agentes de segurança ou funcionários das administrações local e federal, afirma Leopoldo Maldonado, subdiretor da organização Artigo 19. Profissionais e veículos que atuam distantes dos grandes centros, sofrem mais. Em estados como Veracruz e Tlaxcala, diz Maldonado, os jornalistas que publicam informações de interesse público que contrariam esses poderosos quase sempre são ameaçados.

Um dos veículos criticados pelo presidente mexicano, a revista Proceso é historicamente crítica ao poder, informam os jornalistas Marcela Turati e Javier Garza em texto no The New Yok Times. O presidente disse que a publicação não “se comporta bem”, enquanto os bons jornalistas são aqueles que tomam partido e apoiam as grandes transformações. “A referência de AMLO de bom jornalismo pertence à antiga tradição de editorialistas militantes a serviço de um projeto político, como ocorreu durante a Guerra da Reforma no século XIX e durante a Revolução Mexicana, no início do século XX”, destacam Marcela e Garza.

No entendimento dos jornalistas, ao exortar esse conceito, o presidente mexicano rejeita o que custou mais de um século para ser forjado: a imprensa que busca a imparcialidade, a independência e a verdade a respeito dos governos, independente de suas ideologias. “É também um ‘fica quieto’ [um cala a boca, como usado no Brasil] ao jornalismo de investigação independente que — em meio a dificuldades e perigos— tem revelado escândalos de corrupção estatal que contribuíram ao clima de exaustão cidadã que López Obrador capitalizou em seu triunfo eleitoral”.

No país que enterra mais jornalistas por ano que as regiões em guerra, infelizmente, lembram Marcela e Garza, uma amostra do pouco caso do governa a essa realidade é o seu maior investimento no beisebol que no mecanismo de proteção a jornalistas e defensores de direitos humanos. Como em imagens caricatas, o poder do México mudou de mãos, mas foi apenas isso que mudou em relação ao governo anterior, de Enrique Peña Nieto. Pelo menos em relação à imprensa. O México contabiliza mais de 100 assassinatos de comunicadores desde 2000 e pelo menos uma dezena no ano passado.

Profissão difícil

Organizações como Repórteres Sem Fronteiras (RSF) e Article 19 apontam o país como um dos mais perigosos do mundo para o exercício da profissão, com mais de 100 jornalistas mortos desde o ano 2000.

Na quarta-feira (31), a redação do jornal ‘El Monitor de Parral’, na cidade de mesmo nome, no estado de Chihuahua, foi atacada com bombas. A CNDH destacou esta semana as “condições adversas” para o exercício do jornalismo no país. Até quinta-feira, a RSF contabilizava o assassinato de oito jornalistas no México em 2019.

FOTO – Reprodução / Redes Sociais

 

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